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· 4 min de leitura

Fogo posto apontado como possível causa do incêndio que devastou mais de 700 bancadas no Mercado do Kikolo em Luanda

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Entre prejuízos incalculáveis e corações inconsoláveis, centenas de vendedoras choram, amargamente, a perda dos seus negócios e investimentos em consequência do incêndio de grande proporção que consumiu nesta Quinta-feira, 8, mais de 700 bancadas no Mercado do Kikolo, no município de Cacuaco, em Luanda

Inconsoladas, as comerciantes, cujos produtos foram brutalmente consumidos pelo fogo, acreditam tratar-se de fogo posto, dado o facto de não existirem indícios de curto-circuito eléctrico naquela zona, nem tão-pouco de proximidade com áreas onde se praticam actividades de culinária, uma vez que as cozinhas daquele mercado utilizam carvão para confeccionar os alimentos.

Outra razão que, segundo as vendedeiras, sustenta as suspeitas de fogo posto é a reincidência do acto. Ou seja, há pouco menos de um ano, no mesmo mercado, praticamente na mesma área, já terá ocorrido um incêndio de grandes proporções, cujas causas até hoje não foram esclarecidas. O incêndio, que, por sinal, aconteceu no mesmo mês do ocorrido no ano passado, atingiu pouco mais de 750 bancadas localizadas no sector da venda de madeira, assim como parte da zona de comercialização de peças para automóveis, de acordo com os dados apurados no local por uma equipa de reportagem deste jornal.

«Embora eu tenha marido, as compras que fazemos diariamente para o consumo de casa quase sempre saíam desse material que queimou. Não sei o que vou fazer, nem como vou recuperar-me desta desgraça», lamentou dona Isabel que, enquanto conversava com a equipa do jornal OPAÍS, não parava de chorar e de se lamentar em voz alta.

Durante a permanência da equipa de reportagem do jornal OPAÍS no local, foi possível constatar que, além dos vários danos materiais, avaliados em dezenas de milhões de kwanzas, segundo os vendedores, as chamas causaram igualmente danos emocionais aos proprietários dos negócios e aos seus familiares, muitos dos quais se encontravam em prantos, entre lamentos e manifestações de desespero que, em circunstâncias normais, não seriam habituais.

‘‘Estou aqui desde a madrugada e não acredito que não tenham conseguido apagar totalmente o fogo. São várias coisas que se estão a perder. Muitas de nós guardam aí também dinheiro’’, reforçou dona Isabel, que não quis mencionar o valor exacto dos prejuízos, revelando apenas tratar-se de uma soma elevada, uma vez que possui cinco bancadas atingidas pelas chamas.

Enquanto dona Isabel relatava a sua ‘‘má sorte’’ ao OPAÍS, não se pode deixar de mencionar outra vendedeira que, dado o estado exaltado dos ânimos, não se mostrava em condições de falar à nossa reportagem. Vestida com um vestido e panos sobre o corpo, bradava, em desespero: ‘‘Quem vai dar de comer aos meus filhos? Sou mãe e pai ao mesmo tempo!’’ Reincidência do sinistro reforça suspeitas antigas

Pelo segundo ano consecutivo, os vendedores do mercado do Kikolo tiveram o sono interrompido pelas chamas, desde as 23h de quarta-feira, dia 7, até ao nascer do dia seguinte. O incêndio, de média proporção, atingiu parcialmente uma parte da praça, não havendo, até ao momento, causas oficialmente identificadas.

A repetição de episódios desta natureza voltou a levantar questões sobre as condições de segurança dos espaços comerciais, sobretudo nas áreas onde se concentram grandes quantidades de materiais combustíveis. Durante a ronda do jornal OPAÍS pela praça do Kikolo, mais precisamente sobre os escombros, alguns presentes relataram que, tal como no incêndio do ano passado, cujas causas não foram devidamente esclarecidas, o fogo poderá estar relacionado com o assalto às bancadas, às quais terão ateado fogo posteriormente.

‘‘Tal como fizeram no ano passado, primeiro roubaram e depois meteram fogo nas bancadas para disfarçar o assalto. É sempre assim. Veja só como estão as coisas’’, declarou uma vendedora que preferiu não se identificar. Agastada, a mesma questionou por que razão, mesmo depois de aberta uma investigação para apurar as causas e identificar os implicados, os incêndios continuam a ocorrer sem que os responsáveis sejam identificados.

A comerciante mostrou-se ainda profundamente agastada, visto que as suas quatro bancadas, situadas no mesmo sector, foram reduzidas a cinzas pelo violento incêndio. Na mesma situação está dona Isabel, que não conseguiu revelar o valor dos prejuízos, uma vez que, além dos materiais que comercializava, guardava também dinheiro na bancada.

Outros relatos, porém, apontam como possível causa do incêndio uma ponta de cigarro ainda acesa, que terá sido lançada sobre uma das bancadas ou caído por descuido. Entre peças metálicas, madeira, chapas e outros materiais, o fogo, provocado por descuido ou não, encontrou um ambiente repleto de elementos capazes de alimentar as chamas durante cerca de dez horas.

C/ Jornal O País

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